Era a noite de 8 de maio de 1946. Aili Jürgenson e Ageeda Paavel, duas estudantes estonianas, chegaram a Tõnismägi carregando explosivos. Diante delas havia um monumento soviético de madeira, encimado por uma estrela vermelha.
Para as duas garotas, porém, aquela estrutura representava muito mais do que um simples monumento. A Estônia havia voltado ao controle da União Soviética em 1944, e as novas autoridades estavam removendo símbolos ligados à antiga independência do país. Em uma cidade onde os vestígios da Estônia independente eram progressivamente apagados, aquela estrela vermelha representava o novo poder imposto sobre o território.
Aili e Ageeda decidiram atacá-la.
Os explosivos haviam sido obtidos com Juhan Kuusk, que também lhes forneceu instruções. Pouco antes das dez da noite, as garotas prepararam o artefato, acenderam o pavio e se afastaram rapidamente.
Então veio a explosão.
O monumento foi destruído.
As autoridades reagiram imediatamente, e o memorial acabou sendo reconstruído. Para as duas adolescentes, porém, as consequências durariam muito mais tempo.
Elas foram presas alguns meses depois. Aili foi condenada a oito anos no sistema soviético de campos de prisioneiros. Ageeda também foi condenada e enviada para o Gulag.
A história delas não era um caso isolado. Durante o período stalinista, muitos estonianos foram perseguidos por atividades consideradas antissoviéticas. Alguns distribuíam publicações proibidas, outros exibiam a bandeira nacional, mantinham contatos com grupos de resistência ou simplesmente participavam de organizações clandestinas. Para muitos jovens, até mesmo uma ação realizada dentro da escola podia resultar em interrogatório, prisão ou deportação.
Aili e Ageeda passaram anos pagando pelo que haviam feito quando ainda eram adolescentes.
Então a história mudou.
Em 1991, a Estônia recuperou sua independência. O mesmo Estado que décadas antes havia condenado as duas jovens como inimigas passou a ser visto como parte de um período de ocupação soviética.
Em 1998, o presidente Lennart Meri concedeu a Aili, que havia se tornado Aili Jõgi, e a Ageeda Paavel a Ordem da Cruz da Águia, uma das principais condecorações do país, em reconhecimento à oposição ao domínio soviético.
As duas foram as únicas mulheres a receber aquela distinção naquele ano.
Mais de cinquenta anos haviam passado desde aquela noite em Tallinn.
Aili e Ageeda continuavam sendo as mesmas pessoas que, aos 14 e 15 anos, haviam colocado explosivos diante de um monumento soviético.
O que havia mudado era o país que julgava suas ações.
Quando foram presas, eram adolescentes condenadas por sabotagem contra o poder soviético.
Décadas depois, na Estônia independente, foram homenageadas por terem se levantado contra aquele mesmo poder.
O ato não mudou.
Mudou a história.
História Perdida agradece por sua leitura
Fontes:
Estonian History Museum (Eesti Ajaloomuuseum) — materiais históricos sobre Aili Jürgenson, Ageeda Paavel, a resistência estoniana e o período de ocupação soviética.
Estonian National Museum (Eesti Rahva Muuseum) — registros sobre a ocupação soviética, a resistência e a repressão política na Estônia.
National Archives of Estonia (Rahvusarhiiv) — documentos históricos sobre a prisão, condenação e deportação de estonianos considerados antissoviéticos.
Estonian State Gazette (Riigi Teataja) — registros oficiais das condecorações concedidas pelo Estado estoniano após a restauração da independência.
Office of the President of Estonia — informações sobre a Ordem da Cruz da Águia e as condecorações concedidas a Aili Jõgi e Ageeda Paavel em 1998.
Eesti Elu / Estonian World — entrevistas e relatos biográficos sobre Aili Jõgi e Ageeda Paavel e sua ação contra o monumento soviético em Tõnismägi.
Museum of Occupations and Freedom (Vabamu) — documentação sobre a ocupação soviética, repressão, resistência estoniana e experiências de prisioneiros no Gulag.
Encyclopaedia of Estonia — contexto histórico sobre a retomada do controle soviético da Estônia em 1944 e a resistência ao regime soviético.