A foto foi tirada entre 1920 e 1930 e faz parte do acervo da família.
Por volta de 1930, após alguns anos de forte estiagem em Várzea Alegre, no Cariri, Vicente Caldas mudou-se para Aurora, terra da família de sua mãe. Contudo, os estragos da seca também atingiram aquela região. Em 1933, a convite de um parente, ele se mudou para Parambu, no Sertão dos Inhamuns. Por fim, em 1947, vendeu quarenta cabeças de gado que tinha para comprar uma máquina de costura Singer para a esposa e mudar-se com a família para Fortaleza. Inicialmente, foi morar em uma casa alugada no bairro Montese, onde abriu sua primeira bodega. Em 1953, transferiu-se para um imóvel conseguido por seu filho, que era cabo da Aeronáutica, na Base Velha do Pici. O local tratava-se, na verdade, de um antigo galpão construído pelos norte-americanos durante a Segunda Guerra Mundial que, após ser desativado, foi dividido em residências e cedido a algumas famílias. Em meados de 1960, Vicente adquiriu sua casa própria no bairro Jóquei Clube, onde também instalou sua nova bodega.
Ele contava que seu pai, o tropeiro Marcos de Caldas, de Várzea Alegre, aprendeu com a esposa a transmitir essa herança aos filhos. Ela era filha de uma mulher indígena que cultivava o respeito aos próprios ancestrais. Durante as viagens pelo interior do Ceará, de Pernambuco e da Paraíba para vender rapadura, aguardente e carne seca, eles paravam para descansar e recontar essa história. A tradição oral passou de geração em geração, mas, infelizmente, esse elo se quebrou nas últimas décadas.
Ele contava que sua avó, uma indígena kariri das margens do Rio Salgado, em Aurora, fazia parte dos últimos grupos da região que resistiam à aculturação e à miscigenação. Por volta de 1850, após a promulgação da Lei de Terras pelo governo imperial de Dom Pedro II, coronéis locais tomaram posse de territórios indígenas. Em vez de serem totalmente expulsos, muitos indígenas foram proibidos de deixar o lugar e acabaram submetidos ao trabalho forçado pelos novos donos: os homens na lavoura e na pecuária e as mulheres nos serviços domésticos.
Naquela época, a avó dele era uma índia na flor da juventude. Para não ser explorada como trabalhadora doméstica pelo novo dono das terras, o coronel Xavier de Sousa, ela fugiu com outras indígenas e se escondeu nas matas da Chapada do Araripe. Tempos depois, um capanga a cavalo a rastreou e capturou. Ele a levou de volta a Aurora e a expôs no pátio da fazenda.
Ela estava machucada: trazia o rosto coberto pelos cabelos emaranhados e os cotovelos e joelhos ralados pelas quedas no caminho. Mesmo assim, os ferimentos não conseguiam esconder a força daquele olhar firme. Seus cabelos lisos — pretos e brilhantes como as penas de uma graúna —, a pele acobreada pelo sol e o corpo sinuoso mantinham toda a sua beleza.
Aquela jovem índia arisca, de olhar altivo, lábios bem delineados e uma beleza singular, despertou de imediato a atração de um descendente do coronel. Ele ordenou que a desamarrassem e cuidou dela com carinho. Esse jovem, chamado Antônio de Mendonça Pinto, em pouco tempo se apaixonou por ela. Pelo respeito e pelo cuidado recebidos, ela também retribuiu o sentimento. Adotou o nome cristão de Maria do Espírito Santo, casaram-se e tiveram filhos.
Outra história que ele também costumava contar foi que, quando ainda era jovem e morava em Várzea Alegre, teve um sério problema de saúde. Sua mãe, Francisca Pinto do Espírito Santo, mais conhecida como Chiquinha Pinto, ao ver o filho contorcer-se, acossado por uma forte dor no peito, apressou-se a procurar socorro médico. O médico local, após examinar o jovem Vicente Caldas, que tinha apenas 19 anos, aconselhou a levá-lo às pressas para Fortaleza, somente lá os médicos poderiam salvá-lo. Chiquinha Pinto, sozinha em casa com os filhos, pois o marido estava em suas viagens de comércio, ordenou a filha mais velha para que ficasse tomando de conta da casa, enquanto rapidamente enrolava o filho moribundo com um lençol; em seguida, deitou-o na carroça e, partindo do Sítio Varas onde moravam, lançou-se na estrada para Lavras da Mangabeira. De lá, seguiram de locomotiva a vapor, a famosa “maria-fumaça”, para a cidade de Fortaleza. Depois de, aproximadamente, um dia viagem, desceram na Estação Ferroviária João Felipe e seguiram imediatamente para o Hospital de Caridade (atual Santa Casa de Misericórdia), bem próximo dali. E lá o jovem Vicente Caldas teve que ficar internado por vários dias.
Os médicos do hospital, após vários exames, chegaram à conclusão **de** que o caso era extremamente grave. Eles informaram à Chiquinha Pinto que não sabiam **exatamente qual** era o problema — naquela época os conhecimentos específicos e estruturados sobre cardiologia eram muito escassos e limitados —, mas **que** tratava-se, provavelmente, de uma angina de peito ou de alguma outra doença coronariana. E deram-lhe a triste notícia de que, pela experiência deles, aquele jovem não viveria mais do que cinco anos. Chiquinha, naquele momento, **encheu os olhos de lágrimas**.
Comovido com as lágrimas da mãe, um dos médicos quis trazer um pouco de esperança. Ele receitou nitroglicerina para que fosse usada de forma sublingual sempre que o filho voltasse a sentir aquela dor, **além de recomendar que **ele evitasse **esforços físicos** e precisaria de bastante repouso pelos próximos dias.
Quando Vicente soube que havia sido desenganado pelos médicos e que não viveria mais do que cinco anos, entrou numa depressão profunda. Mas com o tempo, o trabalho e as brincadeiras, ele acabou esquecendo da “triste notícia” e sua vida voltou ao normal.
Certo dia, ao visitar o seu tio, Antônio Lourenço, deparou com a prima que há anos não via. Ficou boquiaberto — como ela estava linda! A prima, Maria Carolina de Lemos, também ficou encantada com a beleza do primo que, fisicamente, parecia já ter recuperado a saúde. Vicente Caldas carregava no bronze da pele e no recorte altivo do olhar a herança étnica de sua avó, uma bela índia kariri — traços que a genética esculpira e o tempo fizera lembrar. Enquanto em Carolina desenhava-se a herança das mulheres da Galícia: alta e esguia, ostentava uma alvura límpida na pele sensível, guardando em seus olhos de avelã e nas ondas dos seus cabelos escuros a elegância secreta de uma linhagem espanhola. Os dois se apaixonaram e, em breve, já estariam namorando.
Vicente não quis esperar para pedir a mão da prima em casamento. Sabendo que tinha pouco tempo de vida, ele foi direto à casa do tio.
O tio foi firme na resposta:
— Não! Me perdoe, meu sobrinho. Gosto muito de você, sei que é trabalhador e seria um ótimo marido. Mas os médicos o desenganaram. Você tem poucos anos de vida, e eu não posso fazer isso com minha filha. Ela ficaria viúva muito cedo.
Vicente emudeceu. Levantou-se em silêncio, com os olhos cheios de lágrimas, sentindo a dor no peito retornar. Quando já montava no cavalo, Carolina apareceu correndo. Ela o abraçou e sussurrou em seu ouvido:
— Passe aqui à meia-noite. Vamos fugir!
Um alívio imediato tomou conta de Vicente. Ele sorriu sem parar durante todo o caminho de volta.
À meia-noite, como combinado, ele a aguardava. A janela se abriu em silêncio e Carolina saltou, carregando uma pequena trouxa. Ela correu até o cavalo, apoiou-se no arção da sela e acomodou-se de lado, quase em seu colo. Juntos, desapareceram na escuridão.
Pouco tempo depois, casaram-se oficialmente. Foram pais de oito filhos — entre eles, quatro meninas, das quais uma veio a falecer ainda jovem.
Em uma noite de 2004, prestes a completar 105 anos, faleceu enquanto dormia.